Afinal, qual a finalidade das janelas? Se não para arejar as casas, deixarem a luz do sol entrar, e quando noite o sereno, e nos dias encalorados o vento do norte que sopra forte? Para quê servem as janelas se não apenas para embolar flertadas momentâneas? Para quê servem as janelas se não para colocarmos os cotovelos sobre elas e apoiarmos o queixo nas mãos, para então termos reflexões intensas? Pra quê servem as janelas se não para serem palco de romances caseiros? Até porque os mais modernos não se presam a começar por conta de sorrisos amarelados das afilhadas, das filhas, das netas, das primas e das amigas, vindos todos de uma janela! Para quê servem então, as janelas, se não para que possam dela vigiar a vida do vizinho, prestar atenção nos movimentos das pessoas, e nas roupas, nas etiquetas, e nos carros, e nas nuvens, e nas rodas, e nos cantos dos passeios, e nos canos, e nos tocos de madeira e nos idosos? Pra quê servem as janelas se não para que possam avistar a lua da cama onde se deitam? Para que servem então, as janelas, se não para que possam ver o tempo como está, e assim decidirem com que roupa ir? Eu pelo menos não tenho deixado minha janela ser janela. Dela enxergo somente o quintal de casa e a casa dos fundos. Algumas vezes vejo roupas no varal, secando, e vejo a travessia do gato de um canto para o outro. Para não culpá-la mais direi que dela não vejo a lua por conta da árvore da casa do vizinho, que a tampa completamente todas as noites em que tudo que eu mais preciso é olhá-la da cama do meu quarto. Não coloco meus cotovelos sobre ela para então apoiar o queixo na mão, porque isso é coisa de quem quer arranjar namorado ou ter reflexões intensas. Mesmo tendo certeza da veracidade da frase que Machado de Assis escreveu em seu livro ‘Dom Casmurro’: ‘nem a visão do impossível precisa mais que de um recanto de ônibus’… eu ainda desconfio. Sendo assim penso que qualquer lugar pode ser terra fértil para grandes reflexões, mas não, não da minha janela. Da minha janela não tenho reflexões, não observo pessoas, nem o céu. Ela serve somente para arejar o quarto, e mesmo assim, não temos muito contato, porque quando dou por mim a janela já está aberta. Minha mãe tem essa coisa de abrir as janelas, e ela sempre corre para abrir logo me vê atravessando o corredor. Ela corre para abrir a janela do meu quarto e eu rastejo para chegar ao banheiro e olhar meu rosto no espelho, de quem acabou de acordar. As poucas vezes que vou abrí-la ou fechá-la, ela se dá ao luxo de emperrar. Simplesmente não fecha, quando eu quero fechá-la, e simplesmente não abre, quando eu quero abrí-la, super teimosa. Outro motivo para essa falta de ‘diálogo’ existente entre a janela e eu, é que eu quase não fico no meu quarto, como essas adolescentes fazem de achar prazeroso ficarem no quarto olhando o pôster do cantor favorito, ouvindo música, ou até mesmo como os mais cultos que ficam lendo livros, mas eu leio na varanda de casa, não preciso do meu quarto nem de lutar para abrir uma janela que não quer ser aberta. Por conta dela descobri como é bom ler na varanda. Outro fato é que, uma vez que eu levanto da cama não entro mais no meu quarto, se entro é coisa rapidíssima, como por exemplo, para trocar de roupa depois do banho, mas creio que saio dele antes mesmo de entrar. Na verdade, eu não gosto mesmo é do meu quarto.
segunda-feira, 15 de agosto de 2011
fantasmagórica - confissão de suicida
O ar vinha com força, fazia meu cabelo parecer estar em gravidade, para cima e pontiagudo. Era um vento tão forte, que me faltava o ar; era um vento que me engasgava. Meus olhos engoliam a pressa do momento, do fim, pois os segundos pareciam-me eternidade. Eu sofri a angústia e o pavor dos segundos que encerrariam todo o processo da minha desistência vital. Sem volta, me doei ao tempo, me joguei do morro. Naqueles segundos, lentos e sóbrios, fui caindo, como folha seca de árvore. Segundos intermináveis segundos. Tão lentos que na queda pude ainda indagar os motivos de toda a minha vida, e as razões que me levaram até o topo morro, movida pela fragilidade psicológica que me aflingia há tempos e nunca se solucionava. A vida não tinha sentido, e o que eu acabara de fazer menos ainda. Mas não houve tempo para arrependimentos. Confesso que bateu a vontade de voltar o tempo, de parar a vida, de pausar a queda, mas era tarde demais para manter os pés no chão, uma vez que eles já tinham dado o passo decisivo, e já estavam alcançando o próximo chão, o chão para o qual eu havia saltado. Alcancei o chão. Sem dor, sem maiores pesares. Saiu tudo como eu havia planejado, e a minha vida eu tirei. Morri. Levantei, e olhei meu corpo. Estava completamente destruído. Sem matéria hoje vago, transito sem rumo, sem cheiro nem sombra. Não posso tomar água de cachoeira. Não sinto o vento. Os cachorros não me enchergam e os nenéns não brincam mais comigo. Nenhuma borboleta pousa no meu ombro, e não há passarinho que acerte a minha cabeça, até porque não tenho. Não sinto calor, nem frio. Não consigo pegar maçã das árvores e ninguém sorri para mim. Não durmo nem tenho sonhos. Não sonho e não tenho sonhos, porque não tenho vida. Enxergo, mas estou invisível. Escuto, mas estou inaudível. Não tenho mais sorriso. Não sei se isso vai acabar. Não tenho mais os olhos, as portas da alma. Não tenho voz. Eu cometi um suicídio. Sou apenas uma voz muda, um pensamento trancafiado na imensidão, um par de asas sem passarinho, vagando no tempo e no espaço sem prazo nem previsão, e isso … isso é o inferno.
luto por domingo
Domingo é dia de acordar devagar e dormir denovo. É dia de virar para o lado e virar para o outro; é dia de acordar engasgando, interromper cinco sonhos até desistir de dormir; é dia de andar no corredor da casa, buscar copos de água e sentar na beira da cama. Domingo é dia de acariciar o gato com o pé, de puxar o cobertor com a perna, de fechar a geladeira com a bunda, e deixar o pé no chão, descalço. Domingo é dia de usar roupas largas. Domingo também é dia de usar roupas velhas. Domingo é dia de acordar antes do sol, de acordar antes dos pais. Domingo é dia de ouvir o silêncio de todas as vozes, quando as bocas estão fechadas, e ligar a tevê baixinho e desligar rapidinho; é dia de ouvir o barulho do tic tac do relógio tic-taqueando non-stop, fazendo você não mais querer os últimos cinco minutos no sofá; é dia de pular o breakfast, de acordar os outros com o barulho da descarga, com o barulho da torneira e com o barulho do trio: espuma, escova de dente e os dentes todos. Domingo é dia de não se importar com a campainha, de não levantar para ver a passeata, de não ir à janela ver o avião. Domingo é dia de ser tartaruga, sem ser ninja coisa nenhuma, é dia de ser geléia, é dia de ser maria-mole, bicho preguiça. Domingo é dia do jornal ser meu, é dia de raptar colunas, de se apaixonar por colunistas, de recortar o que interessa. Domingo é dia de adiar até que alguém mande, é dia de de esperar segundas ordens. Domingo é dia de tomar banho morníssimo. Domingo a canção é o barulho dos motores dos carros velozes da fórmula I, e soa como canção de ninar, algumas risadinhas dos recém-acordados na sala, e é dia de vê-los brigando pelo controle, pelo canal, pelo volume. Domingo é dia de se encaixar nos cantos, de repetir o prato do almoço, de deixar o corpo fazer digestão. É dia de ser devagar, de andar sem pressa, de pensar lento, de piscar pouco, de olhar pro nada, de falar menos. E segunda-feira estou de luto.
sonho ou cupcake?
Naquele momento
seus lábios pareciam chumaços de algodão,
pareciam chantily.
Eles falavam macios e doces:
‘você tem que se decidir’
Eu me senti chupando limão,
me senti comendo ração
senti até o gosto do chão
tamanha foi a indecisão!
Será que você viu
que eu estou sofrendo por antecipação?
E se até o dia que eu for embora
estivermos como estamos agora?
E se um dia eu voltar?
(e se eu não voltar?)
(e se eu não for?)
Por milésimos de segundo
no meio daquele diálogo
imaginei possibilidades.
Ciente de que não teria ’restaurar a sessão’
nem ’stand-by’.
Lembrei da minha mãe,
consecutivamente pensei no meu pai.
Então mudei de assunto!
Me veio subtamente a receita que faríamos
e foi assim
que fui do sonho ao cupcake.
Sonho ou cupcake?
seus lábios pareciam chumaços de algodão,
pareciam chantily.
Eles falavam macios e doces:
‘você tem que se decidir’
Eu me senti chupando limão,
me senti comendo ração
senti até o gosto do chão
tamanha foi a indecisão!
Será que você viu
que eu estou sofrendo por antecipação?
E se até o dia que eu for embora
estivermos como estamos agora?
E se um dia eu voltar?
(e se eu não voltar?)
(e se eu não for?)
Por milésimos de segundo
no meio daquele diálogo
imaginei possibilidades.
Ciente de que não teria ’restaurar a sessão’
nem ’stand-by’.
Lembrei da minha mãe,
consecutivamente pensei no meu pai.
Então mudei de assunto!
Me veio subtamente a receita que faríamos
e foi assim
que fui do sonho ao cupcake.
Sonho ou cupcake?
par perfeito
ele diz que ama, ela diz que ama infinitamente mais
ele aperta o pescoço dela, ela pede pra apertar um pouco mais
ela mente, ele pede pra que ela minta mais uma vez
ele perdoa, ela exige o perdão só mais uma vez
ela perdoa, ele faz de novo
ele faz de novo e se transforma sozinho, diz que mudou, que não é o mesmo
ela se comove e depois se envolve
(com coisas que só ela sabe)
e no relacionamento a dois, três é o mínimo
e a culpa vai para a primeira pessoa que passar na frente com a cara limpa
e se não tiver antecedentes, e se for loira, e se for a melhor amiga
não importa! a culpa nela que não fica…
Separados armam tocaias
Juntos bolam planos
dignos de novela mexicana
e pensam que são imperceptíveis
e pensam que ninguém mais sabe jogar, além deles mesmos (grande erro)
Passam um por cima do outro
e passam por cima de todos os orgulhos
e recomeçam pela porta dos fundos
e varrem toda poeira para debaixo do tapete
e vestem o melhor sorriso
e excluem de suas vidas as pessoas, como se deletassem um e-mail
e sorriem com os dentes mais brancos
e engolem salivas secas
e suprimem pensamentos
e exteriorizam todas as raivas
e desfilam com a única capa vermelha da cidade
a capa da alegria de muitos
-que cobre toda a insatisfação do passado,
que cobre todo o amor abalado
como se hoje tudo estivesse superado
e seguem juntos no mesmo objetivo
nem sabem ao certo de quê, talvez o amor infinito
amor que nem sabem se têm
amor que não sabem se perderam
no meio do quarto dele
ou no meio da faculdade dela
Na hora da raiva viram diretores de teatro
decidem a cena
os personagens
se esquecendo que o teatro é ao vivo
e que há possibilidades de que algo não vá como no ensaio
e não sabem como lidar com isso,
passam a culpa pro próximo como se fosse uma bola
Novamente
trocam juras de amor,
mas querem provas de um acontecido
telefonemas
visitas inesperadas
esclarecimentos
Um acusa o outro
um defama o outro
e os dois se amam assim,
de um jeito que
mais humano não poderia ser.
Porque o ser humano não sabe amar.
Sabe fingir.
(Boa sorte para vocês dois, de coração… Mas não me liguem mais! Não me procurem mais! Esqueçam o endereço da minha casa! E continuem o casal mais bonito da cidade!)
ele aperta o pescoço dela, ela pede pra apertar um pouco mais
ela mente, ele pede pra que ela minta mais uma vez
ele perdoa, ela exige o perdão só mais uma vez
ela perdoa, ele faz de novo
ele faz de novo e se transforma sozinho, diz que mudou, que não é o mesmo
ela se comove e depois se envolve
(com coisas que só ela sabe)
e no relacionamento a dois, três é o mínimo
e a culpa vai para a primeira pessoa que passar na frente com a cara limpa
e se não tiver antecedentes, e se for loira, e se for a melhor amiga
não importa! a culpa nela que não fica…
Separados armam tocaias
Juntos bolam planos
dignos de novela mexicana
e pensam que são imperceptíveis
e pensam que ninguém mais sabe jogar, além deles mesmos (grande erro)
Passam um por cima do outro
e passam por cima de todos os orgulhos
e recomeçam pela porta dos fundos
e varrem toda poeira para debaixo do tapete
e vestem o melhor sorriso
e excluem de suas vidas as pessoas, como se deletassem um e-mail
e sorriem com os dentes mais brancos
e engolem salivas secas
e suprimem pensamentos
e exteriorizam todas as raivas
e desfilam com a única capa vermelha da cidade
a capa da alegria de muitos
-que cobre toda a insatisfação do passado,
que cobre todo o amor abalado
como se hoje tudo estivesse superado
e seguem juntos no mesmo objetivo
nem sabem ao certo de quê, talvez o amor infinito
amor que nem sabem se têm
amor que não sabem se perderam
no meio do quarto dele
ou no meio da faculdade dela
Na hora da raiva viram diretores de teatro
decidem a cena
os personagens
se esquecendo que o teatro é ao vivo
e que há possibilidades de que algo não vá como no ensaio
e não sabem como lidar com isso,
passam a culpa pro próximo como se fosse uma bola
Novamente
trocam juras de amor,
mas querem provas de um acontecido
telefonemas
visitas inesperadas
esclarecimentos
Um acusa o outro
um defama o outro
e os dois se amam assim,
de um jeito que
mais humano não poderia ser.
Porque o ser humano não sabe amar.
Sabe fingir.
(Boa sorte para vocês dois, de coração… Mas não me liguem mais! Não me procurem mais! Esqueçam o endereço da minha casa! E continuem o casal mais bonito da cidade!)
prepotência
Sou complicadíssima.
Sou pimenta do reino, limão rosa.
Não há açucar que me adoçe,
Não há farinha que me engrosse.
E, em momento algum, eu deixo de ser escritora
só porque você não é leitor
- ou leitora.
Boa noite.
Sou pimenta do reino, limão rosa.
Não há açucar que me adoçe,
Não há farinha que me engrosse.
E, em momento algum, eu deixo de ser escritora
só porque você não é leitor
- ou leitora.
Boa noite.
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